A aldeiense Juliana Tavares está indignada com o sofrimento que ela e a família passaram esta semana, depois que o avô, João Dias de Andrade (87 anos), foi picado por uma cobra e procurou atendimento hospitalar. Em toda a Região Metropolitana do Recife, o único local em que é aplicado o soro antiofídico é o Ceatox, no Hospital da Restauração.O problema é que nem todo mundo sabe disso e, depois que se fica sabendo, é preciso enfrentar um ambiente super precário e atendentes completamente despreparados, segundo Juliana.
O braço de Seu João na hora da picada e várias horas depois, quando o veneno já havia se espalhado
Ela conta a experiência: na segunda-feira passada, o avô, que mora em Aldeia há 50 anos, resolveu pegar com a mão o que achava ser uma inofensiva cobra verde, para tirá-la do terraço de casa. Acontece que a cobra se enrolou no braço do idoso e o mordeu. Ficou pendurada nele e só se soltou depois de ser arrancada pelo próprio Seu João. A partir daí, a família procurou o SAMU, que passou a informação errada de que ele deveria ser levado à UPA de São Lourenço para receber o atendimento.
“O absurdo já começou aí, quando um médico do SAMU passou essa informação. Perdemos um tempo valioso indo até São Lourenço para, de lá, termos que voltar para a Restauração”, conta Juliana, revoltada. Ao chegar à Clínica HR, que fica anexa ao hospital, Seu João foi encaminhado a uma Sala Vermelha, isolado da família. No dia do acidente, segundo a neta, Seu João só foi tomar o soro antiofídico por volta de 22h, ou seja, sete horas depois da mordida, quando se sabe que o ideal é tomar até quatro horas depois. Por conta disso, o veneno se espalhou pelo braço dele, causando um grande inchaço e roxidão. O exame mostrou que a cobra que mordeu o aldeiense foi uma jararaca verde, serpente altamente venenosa. Mas o absurdo não para por aí.
Juliana conta que o ambiente em que o avô ficou não podia ser pior. Os corredores lotados, as portas e paredes descascadas, macas sem lençol e nem mesmo álcool para higienização. Ela diz que o gosto da água que davam aos pacientes era muito desagradável e por isso ela levou quatro litros de água para o avô, mas diz que a água sumiu, ninguém sabe onde foi parar. Tão grave quanto isso foi o fato de que a enfermeira que atendia no momento chegou a indagar se poderia ou não oferecer água ao paciente. “Ora, todo mundo sabe que uma pessoa picada de cobra deve se hidratar para desintoxicar o organismo!”.
Na falta de copo, ela diz que viu um enfermeiro cortar um tubo de soro para um paciente beber água. Comida, então, era disputada: “Meu avô chegou em casa morrendo de fome. Ele contou que na hora das refeições a comida era muito pouca, um pedaço de queijo, uma banana comprida”. Seu João, diz ela, ficou bastante assustado, pensava o tempo todo que ia morrer. Instalado numa Sala Vermelha para onde são encaminhados pacientes graves com todo tipo de trauma ou patologia, ele presenciou a morte de nove pacientes nos três dias em que ficou no hospital.
“Foi um verdadeiro pesadelo. O que meu avô passou, ninguém merece. Nós estamos tentando denunciar, mostrar a situação absurda que uma pessoa picada por cobra tem que passar e alertar as autoridades de que precisamos de um posto de atendimento aqui em Aldeia, que é uma região onde existe muita mata e muitas serpentes”, apela Juliana. Que sabe a Prefeitura de Camaragibe não toma a frente desta luta?
Cobra-cipó (trecho editado em 21/5)
Apesar de o hospital ter afirmado que a cobra responsável pela mordida no aldeiense se tratar de uma jararaca-verde, vários especialistas ligaram para o Aldeia da Gente para contestar a informação. Segundo o estudante de Biologia Romero Santos, a mordida de uma víbora como a jararaca-verde é totalmente diferente da picada de uma cobra-cipó, que tudo indica foi responsável pelo acidente reportado neste site.
Outro estudioso, Rodrigo Leite, lembra que há muito tempo não se tem notícia da presença de uma jararaca-verde em Aldeia. E ressalta que não se deve matar as cobras, mesmo as mais venenosas. Basta tentar mantê-las afastadas de casa e, se for o caso, chamar a Brigada Ambiental (153) para resgatá-la.
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